Sítio Brasil - Página Inicial

Anuncie

Solteirinhas e solteironas

Para quem está vivo, ir a Tiradentes é projeto que não deve ficar em segundo plano. Para quem é brasileiro, é uma obrigação. Pequena pérola de preservação, encravada ao pé da Serra de São José, a cidade é um convite à contemplação. Estacione seu carro o mais longe que puder e peça pra esconder as chaves na recepção. Você só vai precisar de seus pés. Caminhando é que Tiradentes vai aos poucos se revelando por trás de fachadas quase iguais, mas todas muito diversas no que guardam.

Mais um dos muitos lugares que surgiram em meio à febre do ouro colonial, Tiradentes viveu dias de glória, a ponto de ter uma das três igrejas mais ricas em ouro no país (se bem que essa briga é velha...), a Matriz de S. Antonio de Pádua. Ande a pé e você perceberá sua onipresença, compondo a cena de onde quer que se olhe.

A propósito, o calçamento é um espetáculo à parte. Segundo me disse o Leonardo, charreteiro ainda moço, mas cioso da função, as pedras pequenas e grandes são chamadas “solteirinhas e solteironas”, por serem de tamanhos muito diversos e de difícil encaixe... Se é verdade não sei, mas é o único desse tipo em todo o Brasil. Caminhe por ele e sentirá vontade de levar um pedaço pra casa.

Há em Tiradentes uma infinidade de ateliês. Artistas graúdos e miúdos, gente simples ou sofisticada, em começo ou fim de carreira, todos cederam aos encantos de viver abraçados pelo paredão da serra. Vale a pena entrar com muita calma em cada um, conhecer os objetos, conversar com os artistas e, obviamente, enfiar a mão no bolso. Nem que seja por um joguinho de tapetes ou uma miniatura de relógio de sol: é irresistível a tentação de sair de Tiradentes com um pedaço dela nas mãos.

Comer estando em Tiradentes é uma daquelas raríssimas situações em que dois enormes prazeres podem se encontrar. Pode ser o excelente feijão tropeiro do Bar do Celso, o self-service simples e correto do Calabouço, as pingas curtidas da Karin ou o ótimo café da Maria Luiza, no Largo do Ó. Mas há uma experiência à parte esperando por você no restaurante Viradas do Largo: peça o Tutu com Costelinha, aprecie com toda a calma e note seus pensamentos rapidamente se organizando para uma próxima viagem a Tiradentes. Não é à toa que é tido como o melhor em comida mineira no Brasil.

Tiradentes tem história, tem boa comida e gente hospitaleira. Tem excelentes pousadas, uma paisagem de tirar o fôlego e um conjunto arquitetônico de rara beleza. Tem passeio de maria-fumaça com destino a São João Del Rey, num trajeto carregado de lentidão e romantismo, e charretes à disposição no Largo das Forras, para uma volta pelos principais “pontos turísticos” da cidade, seja lá isso o que for.

   

Mas para mim, o que há de melhor ao visitar Tiradentes é o ritmo. Tudo é necessariamente lento, gradual. Anda-se a pé, toma-se cuidado pra não pisar em falso no calçamento, espera-se pela comida, espera-se pelo trem, espera-se anoitecer. Há tempo para observar, tempo para sentir, tempo para contemplar o que está fora e, inevitavelmente, reencontrar-se com o que se tem dentro. Pra que mais?

 

A. Catani

P.S.: Conheça também a viagem que fizemos até Penedo.

© - 1999-2013.